Um relatório global publicado recentemente mostra como o trabalho mal gerido e mal planejado, incluindo atividades de alta demanda, excesso de horas extras e insegurança laboral associados aos ambientes de trabalho com falta de gestão, está trazendo malefícios à saúde dos trabalhadores e a economia de modo geral.
O estudo
O relatório publicado em 22 de abril de 2026 em Genebra, na Suíça, mostra que mais de 840.000 mortes anuais estão relacionadas às condições de saúde relacionadas aos fatores de Riscos Psicossociais, como o excesso de horas extras, insegurança no trabalho e assédio no local de trabalho, de acordo com estudo global publicado pela International Labour Organization (ILO) – OIT. Estes fatores de risco estão diretamente associados à doenças cardiovasculares e distúrbios mentais, incluindo o suicídio.
O estudo, intitulado “O ambiente laboral psicossocial: perspectivas globais e medidas de prevenção – The psychosocial working environment: Global developments and pathways for action” traz a tona o impacto crescente de como o ambiente de trabalho pode impactar a saúde e a segurança dos trabalhadores, trazendo um alerta sobre os fatores de Riscos Psicossociais, estes que podem criar um ambiente de trabalho agressivo se não for propriamente avaliado e gerido.
Além disto, o estudo também traz que estes riscos somam quase 45 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade perdidos todos os anos, ou seja, a cada ano são pedidos no total 45 milhões de anos de vida que não foram produtivos, perdidos para sempre, sem contar as mortes prematuras e um custo estimado de 1,37% do PIB mundial por todo o planeta.
O que é o ambiente de trabalho psicossocial?
O relatório apresenta o ambiente de trabalho psicossocial como a soma dos elementos do trabalho e das interações no local de trabalho relacionados à forma como os cargos são estruturados, como o trabalho é organizado e gerenciado, e as políticas, práticas e procedimentos mais amplos que regem o trabalho. Esses elementos, individualmente e em conjunto, afetam a saúde e o bem-estar dos trabalhadores, bem como o desempenho organizacional.
Para melhor compreender os riscos psicossociais, o relatório propõe três níveis inter-relacionados do ambiente de trabalho:
- Primeiro, a natureza do próprio trabalho, incluindo demandas, responsabilidades, alinhamento com as habilidades dos trabalhadores, acesso a recursos e a estruturação das tarefas em termos de significado, variedade e uso de habilidades.
- Segundo, como o trabalho é organizado e gerenciado, abrangendo clareza de funções, expectativas, autonomia, carga de trabalho, ritmo de trabalho e supervisão e apoio.
- Terceiro, as políticas, práticas e procedimentos mais amplos do local de trabalho que regem o trabalho. Isso inclui regimes de emprego e jornada de trabalho, gestão da mudança organizacional, monitoramento digital, processos de desempenho e recompensa, políticas e sistemas de gestão de SST (Saúde e Segurança no Trabalho), procedimentos para prevenir violência e assédio no trabalho e mecanismos para consulta e participação dos trabalhadores.
O relatório enfatiza que os riscos psicossociais decorrem desses elementos e podem ser prevenidos por meio de abordagens organizacionais que abordem suas causas raízes. Destaca também a importância de integrar a gestão de riscos psicossociais aos sistemas de segurança e saúde ocupacional, com o apoio do diálogo social entre governos, empregadores e trabalhadores.

Como a OIT estimou 840.000 mortes
A estimativa de mais de 840.000 mortes por ano foi baseada em duas fontes principais de evidência. A primeira são dados sobre a prevalência global de cinco importantes fatores de risco psicossociais no trabalho: estresse ocupacional (altas demandas combinadas com baixo controle), desequilíbrio entre esforço e recompensa, insegurança no trabalho, longas jornadas de trabalho e assédio moral e sexual no local de trabalho. A segunda são pesquisas científicas que demonstram como esses riscos aumentam a probabilidade de doenças graves, como doenças cardíacas, acidente vascular cerebral e transtornos mentais, incluindo suicídio.
Esses níveis de risco foram então aplicados aos dados globais mais recentes sobre mortalidade e saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do estudo Carga Global de Doenças (GBD) para estimar o número de mortes e anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) atribuíveis a esses riscos a cada ano. Essa abordagem permitiu à OIT quantificar tanto o impacto humano quanto o econômico, incluindo a estimativa das perdas de produtividade refletidas nos custos do PIB associados aos anos de vida saudável perdidos.
Além disso, o relatório sintetiza um amplo conjunto de evidências que demonstram que os riscos psicossociais estão ligados a uma vasta gama de problemas de saúde mental e física entre os trabalhadores, incluindo depressão e ansiedade, bem como doenças metabólicas, distúrbios musculoesqueléticos e distúrbios do sono.
Exposição generalizada
Embora muitos riscos psicossociais não sejam novos, grandes transformações no mundo do trabalho, incluindo a digitalização, a inteligência artificial, o trabalho remoto e novos modelos de emprego, estão remodelando o ambiente psicossocial de trabalho. Essas mudanças podem intensificar os riscos existentes ou criar novos, se não forem devidamente abordadas. Ao mesmo tempo, podem oferecer oportunidades para uma melhor organização do trabalho e maior flexibilidade, destacando a necessidade de ações proativas.
“Os riscos psicossociais estão se tornando um dos desafios mais significativos para a segurança e saúde ocupacional no mundo do trabalho moderno”, afirmou Manal Azzi, Líder da Equipe de Políticas e Sistemas de SST da OIT. “A melhoria do ambiente psicossocial de trabalho é essencial não apenas para proteger a saúde mental e física dos trabalhadores, mas também para fortalecer a produtividade, o desempenho organizacional e o desenvolvimento econômico sustentável.”
Ao abordar esses riscos de forma proativa, conclui o relatório, países e empresas podem criar locais de trabalho mais saudáveis que beneficiem tanto os trabalhadores quanto as organizações, ao mesmo tempo que fortalecem a produtividade e a resiliência econômica.
O Brasil se antecipa
A partir da publicação da Portaria MTE nº 1.419, de 27 de agosto de 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego trouxe a atualização da NR-1 que aborda especificamente os Fatores de Riscos Psicossociais no trabalho. A partir do dia 26 de maio de 2026 as empresas brasileiras estão obrigadas a integrar nos seus documentos de gestão de segurança do trabalho a Avaliação dos Riscos Psicossociais.
Esta avaliação deve ser incorporada ao PGR conforme o item 1.5 da NR-1, portanto fique atento aos prazos e faça as avaliações de Risco Psicossocial no seu ambiente laboral.
A equipe da AESC Assessoria já está realizando estes estudos e implementando os planos de ação para realizar a gestão efetiva destes fatores de risco, contribuindo para um ambiente de trabalho seguro e saudável.